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Gorda sim, mas com Humor!

Sou uma Ex-Obesa Morbida e criei este blog apenas para que a minha experiencia possa ajudar e esclarecer quem tambem sofre desta doença

[55] Ana Dias

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Nome:Ana Dias

Situação: Bypass Gástrico com Anel

Data da Cirurgia : 01/10/2008

Data do Testemunho:28.07.2016

 

 

Chamo-me Ana Dias, e segundo me contam, nasci com o peso normal, mas no entretanto, comecei a engordar e por isso aos 6 anos, fui inscrita na ginástica federada no Estrela da Amadora, na cidade da Amadora, incentivada por uns tios que me criaram até aos 8 anos de idade, mas tinha contacto com os meus pais, ao fim de semana, pois até aqui, ficava para trás nas brincadeiras infantis, chorava por me deixarem para trás, mas depois passava, como é natural nestas idades.

Lembro-me que foi a partir desta altura de começar a sentir que alguns colegas na escola me gozavam, faziam brincadeiras que eu não gostava, ou seja, o que hoje se chama de Bulling, mas no 9º ano, senti muita discriminação, pois comecei a ser apedrejada por um colega, tenho também um acidente escolar que me transforma, mas continuo com alguns amigos, que não me deixam isolar, e até aqui, não sinto muito o peso.

No ambiente familiar, desde muito pequena, que me habituei a ouvir, a história de que estava gordinha para a idade, mas também não faziam muito para combater isso, dando-me alimentação não a mais correcta.

Os meus pais, sempre me alertaram que estava a pesar muito, esforçaram-se apesar de não muito, a iliteracia alimentar ainda é muito grande, e pensamos que comer mais vegetais, peixe, saladas, etc, é uma boa dieta, mas não.

Como dizia, em casa para além de não ter um bom ambiente familiar entre os meus pais, a alimentação não era a mais correcta, visto que tinha acesso indiscriminado, a bolachas das mais diversas qualidades, doces, bolos, refrigerantes, entre outra alimentação não muito saudável, apesar de também ter acesso, a verduras e fruta.

Quanto à classe médica, sempre tive um médico de família que também me alertava, sobretudo quando muitas vezes, torcia os pés devido ao peso excessivo, fazia sempre análises regulares, nunca sendo detectado nada de anormal, mas também nunca sendo encaminhada para um especialista, sendo só indicado, para emagrecer e fazer dieta, mas nunca dado uma linha orientadora para a fazer. Friso, que nunca entrei em dietas ditas “iô-iô”, nunca fiz medicação para emagrecer, entre outras soluções apresentadas.

Infelizmente, deixei a escola apos o 10º ano, e aqui, começa a grande saga, de todos nós obesos, a procura do primeiro emprego, só com o 9º ano completo, e com a obesidade e precaridade financeira, torna-se complicado, enviei currículos, fui a várias entrevistas, mas sem sucesso.

Sempre tive uma vida familiar algo atribulada mas sim, consegui um emprego mais fixo e aos poucos, foi pensando mais em mim, e como sempre li e sempre tive que a ideia de continuar os meus estudos, comecei a estudar à noite para os terminar.

Mais uma vez, a classe médica foi observando, só uma vez me dirigindo para um Endocrinologista, que me prescreve uma dieta, que apesar de eu a efectuar rigorosamente, a mesma não surte efeito, e o médico de família, retira-me, com a mesma conversa, mas sendo mais rígido, dizendo-me que se eu, continuasse assim, chegaria aos 30 anos, com os seios descaídos até há barriga, como as mulheres do continente africano, peço desculpa pela descrição, se choquei quem me lê, mas a mim, também me chocou, e esta conversa, é designada por alguma classe médica, como tratamento de choque, a ver se nos consciencializamos, do ponto em que estamos. Deixo, há consideração, de quem lê estas linhas, se concordam ou não, com este tratamento, sei que já foi há alguns anos, e que agora, poderá não ser assim, e se não é, ainda bem.

Contudo, numa conversa com uma familiar, esta comunica-me que me quer ajudar nesta área a nível financeiro, para eu procurar um especialista em obesidade, para ver o que realmente se podia fazer por mim, e aqui começa a minha mudança. Já tinha algumas colegas que tinham feito uma destas cirurgias, e pedi o contacto do médico e fiz as minhas pesquisas, e decidi-me por ir a uma consulta com o cirurgião bariátrico, Dr. Rui Ribeiro, à sua clinica privada, visto que já não consegui ser consultada por ele, no hospital publico onde o mesmo também desempenhava funções.

Como em todos os processos cirúrgicos, faz-se análises e exames prévios, e eu tinha em 2008, 27 anos e 120 Kgs, e os resultados dos mesmos não são promissores, visto que o meu coração estava quase a colapsar, o fígado estava muito gordo, os rins estavam também afectados e já era diabética, e foi a ideia de poder a ficar insulinodependente, que me fez avançar para a mudança.

Neste momento, informo-me com a minha equipe médica, então qual será melhor para mim, a melhor cirurgia, pois em Portugal existem várias cirurgias bariatricas e assim, comecei o meu processo para Bypass Gástrico com Anel, ao longo de 5 meses, efectuei consultas com o cirurgião bariátrico, com a psicóloga, nutricionista e fisioterapeuta, sim, estamos e devemos estar para o resto da vida, acompanhados da nossa equipa médica multidisciplinar.

Nesta altura, conheci também uma grande mulher, a Gina Geadas, sim tu Gina que também fizeste um Bypass Gástrico e onde contavas a tua história, e que me integraste nesta tua família chamado Grupo XXLight, e este grupo foi fundamental para mim e não só.

Neste grupo, ouvi muitas opiniões, vi a maneira em que todos se transformaram, e onde fui a um almoço na Malveira, com mais de 100 pessoas, e que conheci pessoas iguais a mim, histórias parecidas à minha e que entretanto, muitas já se tinham renovado.

Este grupo foi a minha salvação, bebi muitas das palavras e acções destas pessoas, ensinamentos que hoje em dia, ainda me recordo, e faço os possíveis para continuar a praticá-los, conjuntamente com a confiança da minha equipe médica, e antes de ser operada, comecei uma dieta pré operatória, que é necessária para desinflamar e desinchar os nossos órgãos, especialmente aqueles que vão estar perto na área intervencionada e as áreas intervencionadas, estômago e intestinos, chegando a pesar neste encontro, 115 Kg, e renasci, no dia 1 de Outubro de 2008.

Nestes meses, estive entusiasmada com todo o processo, e esforcei-me por implementar em casa novos hábitos, sempre com alegria.

Confesso, que não pesquisei muito sobre o processo, primeiro porque não é da minha índole, segundo porque ia absorvendo os ensinamentos do XXL, ia também questionando a minha equipe médica sobre o que ouvia e sobre o que podia acontecer ou não comigo, e até porque há 7 anos atrás, não havia tanta informação como hoje no nosso país e do nosso país.

Desde o início do processo, que eu e a minha equipe médica, estipulamos um peso a ficar após passadas as várias fases, consoante a minha altura e constituição física, e até aos 30 anos, e sem ter uma gravidez após este processo, deveria ficar com 70 Kg, e mantê-lo, o mais tempo possível, e recomendo que assim seja, uma meta colocada com a ajuda dos médicos mas sem ser muito exigente, também há que ter a abertura suficiente de parte a parte, para que seja durante o processo, estabelecido uma outra meta de peso

Efectuei a minha operação na Clinica de Santo António, pela mão do Dr Rui Ribeiro e a sua equipe médica, nesta altura, a cirurgia era realizada por laparoscopia, com 5 furos bem posicionados em pontos considerados estratégicos pela equipe médica, e estive 5 dias internada, normalmente, são 3 dias de internamento sem complicações, mas no meu caso, apesar de não ter tido complicações, o fim-de-semana, meteu-se pelo meio, e a equipe médica achou por bem, ficar mais algum tempo na clinica.

Assim que foi dada indicação médica, comecei na clinica a ingerir um chá fraco não muito quente, por uma seringa, 10 mg de meia em meia hora, e assim estive até ter alta. No seguimento da alta, foi recomendado medicação para as dores em caso de SOS, fiquei também com indicação de tomar as vitaminas e protector de estômago, normais para esta situação, e daí a 8 dias, iria tirar os pontos da cirurgia, e teria que ter algum repouso, alternado com alguns minutos em pé, pela casa, sim porque até na clinica, comecei logo a dar alguns pequenos passeios e comecei a ficar sentada no cadeirão, e também me foi dada uma dieta para os dias a seguir, que eram constituídos de chá como na clinica.

Após 8 dias, fui retirar os pontos e estava tudo a cicatrizar bem, foi-me dado um Atestado Médico de 60 dias, devido ao meu trabalho pesado, e seguimento de consultas médicas de nutrição e psicologia.

Esta fase, não foi fácil para mim, fiquei muito debilitada, sensível, cada pessoa é uma pessoa, não conseguia consumir as doses de alimentação recomendadas pelos médicos na dieta liquida que era de 3 semanas, falei com os médicos, e recomendaram-me só beber o que pudesse, para não forçar, e assim fiz, os medicamentos eram grandes e não passavam, falei com os médicos e parti-os e dissolvi-os na alimentação liquida, por recomendação médica.

À medida que ia passando, as dores que tinha nos ombros, que já sabia que ia ter, devido ao ar que nos injectado aquando da operação, foi passando, o andar concurvada também, comecei por recomendação médica, a andar em casa alguns minutos, e como morava no segunda andar, a ter cuidado com o descer e subir escadas, mas progressivamente e com a vigilância da minha mãe, no primeiro mês, fui saindo à rua para passeios nos arredores da minha casa, de 15 min que depois foram aumentando, consoante a minha força anímica.

Entretanto, tive uma infecção urinária, originada pelo internamento, que foi logo tratada e devidamente comunicada à minha equipe médica, que me aconselhou para combater este pequeno incidente, que é normal em alguns pacientes.

Durante este tempo, continuava a absorver os ensinamentos e palavras dos elementos que conhecia pessoalmente e através do blogue da Gina. Depois, veio a fase, da dieta pastosa, onde tive a preciosa ajuda da minha equipe médica mais uma vez, em que me orientou, com uma dieta personalizada, onde não me obrigou a consumir alguns ingredientes que não gostava, trocando-os por outros que gostava e gosto, com o mesmo valor nutricional, e isto é essencial, termos abertura e confiança especialmente da parte da área de nutrição, para termos sucesso, e claro, fazer tudo, como é devido.

Nesta altura, comecei a enjoar algumas comidas, o que por vezes, acontece nestas cirurgias, há pacientes que enjoam a carne, outros o peixe, o que foi o meu caso. Com a ajuda da minha nutricionista, fomos vendo algumas hipóteses de confecção, mas não consegui, e abandonamos o consumo de peixe.

Neste período também de transição da dieta pastosa para uma dieta mais dita normal, ao introduzir alguns ingredientes, com o entusiasmo de estar novamente a comer, e sabendo as recomendações do que deveria fazer, ou seja, comer num prato de sobremesa, com talheres de sobremesa, as porções exactas que os médicos recomendaram, e mastigar tudo muito bem, e respirar entre garfadas, entusiasmei-me, e consumi uma porção a mais de arroz, porção essa que ainda o meu estômago ainda não estava preparado, e tive o meu primeiro dumping.

O dumping não é aconselhado nunca, e especialmente numa altura prematura, visto que os órgãos intervencionados interiormente só voltam a estar no seu local 6 meses após a cirurgia, e consequentemente, pode provocar fístulas, o que não é recomendável em nenhuma altura. Neste dia, senti-me muito mal, estava em casa acompanhada da minha mãe, comecei com dores no estômago, como se tivesse ingerido lixivia, uma taquicardia, perda de sentidos, suores frios, e telefonei para a minha equipe médica a aconselhar-me, a minha nutricionista, aconselhou-me a andar 30 min à volta da mesa da sala de estar, se não passa se esses sintomas, que lhe liga-se e que ela referenciava me para o hospital.

Nesses minutos, senti que ia morrer, mas consegui induzir o vómito, coisa que não se deve fazer, mas foi a recomendação médica na altura, e assim o fiz, e comuniquei à minha nutricionista, a mesma, me disse para me deitar um pouco e descansar, e não ingerir nem líquidos nem sólidos, até o mau estar passar e assim foi.

Portanto, recomendo que tenham atenção às recomendações médicas, comecem a auscultar o vosso novo estômago, com o tempo aprende-se, não é fácil, mas consegue-se, e não façam nada sem o conhecimento da vossa equipe médica, não se auto mediquem, não induzam o vómito, mas mais do que isso, não forcem o vosso estômago.

Outro aspecto, são os Planos Alimentares, que são personalizados, tanto no período pré-operatório, bem como, no pós operatório, pois são calibradas para o peso, altura, características físicas e metabólicas, hábitos familiares, alimentares e profissionais de cada paciente, logo são individualizadas, e nunca devem ser passadas a pessoas conhecidas, mesmo que já estejam em processo.

Após 3 meses a cirurgia, pesava menos 30 Kgs, comecei a sentir-me bem, a sentir os elogios, de todos, retomei o meu trabalho, mas como antes da cirurgia tinha pedido para mudar de sector, para um patamar acima, assim que regressei após a cirurgia, fui colocada nesse posto de trabalho, que sempre fui desejando.

O meu processo foi-se desenrolando sem mais demoras, e à medida que fui ultrapassando as fases deste processo, e como fiquei algo afectada a nível da memória, outra consequência da cirurgia, que deriva de pessoa para pessoa, isso afectou-me um pouco, visto que eu antes conseguia recordar-me de algumas coisas, além de trocar algumas palavras quando falava e também quando escrevia, e por isso, no hiato das consultas médicas, que no início são mais frequentes e depois mais espaçadas, elaborava listas do que queria falar com os médicos nas próximas consultas, de assuntos que ouvia e lia no blogue do XXL, e assim esse facto foi debatido com a minha equipe médica, e foi me receitado um medicamento para a falta de memória, que infelizmente não fez efeito, mas que com o tempo, eu fui desconstruindo na minha cabeça, com a ajuda de toda a equipe médica; outro factor, foi a queda de cabelo, nunca tive um bom cabelo, mas sempre tive comprido e ondulado, e com este processo, em algumas pessoas, e foi o meu caso, ele começa a cair em demasia, e a ficar mais fraco, mais baço, e eu já, tinha conhecimento disto, por isso, não me preocupei muito no início, e estava preparada para tal, e mais uma vez, realço a importância da Gina Geadas e do Grupo XXL, que foi precioso, e muitos disseram o que tinham feito, que era, para não desanimarem, cortavam o cabelo e assim era mais fácil, e não deprimiam.

Mais uma vez, consultei a minha equipe médica sobre este assunto, mais uma vez me foi receitado um medicamento para a queda de cabelo que não surtiu efeito, e assim desde essa altura, que tenho o cabelo curto. Sim, custou, mas entre cortar o cabelo e estar com muito menos peso, preferi e prefiro cortar o cabelo.

Como já referi anteriormente, cada pessoa é uma pessoa, o que se passou e passa comigo, poderá não passar com muitas outras pessoas, há quem tenha perca de cabelo, há quem comece a ver as suas unhas mais enfraquecidas, mas para tudo há solução ou pode ser atenuado. Neste aspecto, há que não desesperar, e começar os tratamentos o mais célere possível, para atenuar estas situações.

Com o começo da perda de peso, vem atrás muitas outras questões, como o vestuário e calçado, num primeiro momento, não comprei vestuário e calçado, resolvi esse aspecto, com cintos, e o apertar da roupa na costureira, porque não vale a pena gastar-se dinheiro, especialmente a quem não tem muito, como eu, em vestuário e calçado, quando de semana para semana ou de mês para mês, se perde peso, e sem ter um peso estabilizado, só se gasta dinheiro inutilmente, e além disso, como estava cada vez mais envolvida com o Grupo XXL nas suas iniciativas, tive como todos os membros que compuseram e vieram depois, vestuário e calçado, doado por quem já tinha realizado a cirurgia uns meses antes e que já tinha roupa para o meu número, numa primeira fase, coloca-se no blogue quem necessitava de roupa e quais os números, via-se quem tinha a roupa, e gentilmente, de todos os pontos do país, os membros traziam a casa dos membros mais novos, casos como o meu, que não dispunha de transporte próprio, para ir buscar o vestuário e calçado, então o mesmo, era-nos gentilmente entregue na nossa casa, pelos membros que disponham do vestuário e calçado, e assim, se chegou a constituir, o Baú da Madrinha, onde quem já tivesse sido operado, oferecia a sua roupa, o seu calçado, havendo troca de roupa e calçado.

Posteriormente, entrei eu neste processo, dando a roupa que já tinha vindo de outros membros, e até alguma roupa que fui adquirindo e que me foi também dada de presente por amigos ou familiares, este processo durou 4 anos, e durante esses anos, vivi o que até nunca tinha vivido, desde saídas à noite, jantares, concretizar de alguns sonhos.

Porém, nesta fase convém também termos os pés bem assentes na terra, pois podemos deslumbrarmo-nos, porque é tão bom, termos menos peso, é tão bom, vestir a roupa da moda, a roupa normal para a nossa idade, vestir as cores, e não aquele vestuário monocórdico, que é o preto, castanho ou vermelho, que era o meu caso, gastar rios de dinheiro quando se ia às compras, e não trazer nada e nada ao nosso gosto, passar essa fase sim é bom, poder vestir roupa que até há anos nos era inacessível e com isso gastar pouco ou até mais, visto que as peças são mais baratas comparando com o vestuário de antigamente, por isso, convém também não nos deslumbrarmos muito com esta fase, levar as coisas lentamente, ter essas peças cedidas por familiares, amigos, conhecidos e ocasionalmente, comprar algo novo, que faz bem ao psicológico, e até para vermos em que medida é que estamos, e se estamos a perder peso, massa muscular e gordura, porque pode-se perder estres três factores todos ao mesmo tempo, ou um de cada vez, e este tema, também mexe muito connosco, e por isso, fui aconselhada pela minha equipe médica, a só me pesar aquando das consultas médicas, e essa premissa, ainda é respeitada por mim, nos dias de hoje, ocasionalmente, peso-me fora das consultas, porque agora as consultas são muito espaçadas, mas só para me regular, nada mais, e mais, jamais se deve começar a ficar inseguro por não se perder peso numa determinada altura, isto porque durante um período de tempo o corpo, pode perder peso, e depois começar a estagnar, e ir perdendo com o tempo, o organismo levou um choque, e terá que se reorganizar, assim como nós, a todos os níveis, e além de que o stresse de não se perder peso, pode influenciar a perca de peso, além de que temos que nos mentalizar que um dia, temos que estabilizar o peso e mantê-lo durante muito tempo, senão para sempre.

Outro factor que nos influencia também, é enfrentar os convívios familiares e sociais à volta da mesa, um grande desafio, mas que aprendemos a encarar com outros olhos.

O que aprendi, até porque quando fiz a cirurgia ainda não havia muitos estabelecimentos comerciais com o actual cuidado com a alimentação saudável, foi que devia respeitar os meus horários de alimentação, e andar sempre com snacks na mala, mochila ou lancheira do almoço, e levar o meu almoço de casa, especialmente, no inicio, em que ainda não podemos comer a alimentação dos demais, devido aos temperos, molhos etc, se houver uma pequena conversa com familiares e amigos, todos compreenderão, e não deixamos de conviver familiarmente e socialmente por termos feito esta cirurgia.

Ainda hoje, ando com snaks para todo o lado, se ocasionalmente esqueço-me e vou a um café, ficar sem comer é que não, mas tento sempre escolher a opção mais saudável possível, se não for possível, comer algo que me faça menos mal dentro das opções menos saudáveis, mas saltar a refeição, não é saudável, e o que não é também saudável, é de se deixar de conviver por se ter feito esta cirurgia.

Com o tempo, aprendemos a gerir tudo, podemos comer fora, ocasionalmente, começamos a saber colocar os ingredientes na medida certa no prato, a fazer as melhores escolhas, a comer a nossa medida, sem fazer muitos pecados, e uma vez por outra, com conta, peso e medida e sem remorsos, é mais fácil, e teremos sempre a nossa equipe médica para nos auxiliar também a preparar tudo isto na nossa cabeça.

Outro assunto, é em relação às bebidas com gás, alcoolizadas e sumos ou água às refeições, muitos desconhecem mas as bebidas com gás estão interditas para sempre, como por exemplo, água com gás; as bebidas alcoolizadas também, mas pode-se abrir excepções em dias de festa, mas é necessário alguma cautela, visto que com o Bypass, fica-se alcoolizado num curto espaço de tempo, mesmo com pouca bebida, e eu sei por experiencia própria, apesar de ter ouvido conselhos sobre o mesmo, numa das minhas comemorações de aniversário, consumi um pouco mais de álcool, e transformei-me um pouco, quanto aos sumos e águas à refeição, supostamente, não devem ser consumidas às refeições, visto que ocupam o espaço que devia ser ocupado pela comida, pois o nosso estômago está mais pequeno e não comporta, as mesmas medidas que antes, por isso, não se deve consumir bebidas à refeição.

Para além disto, saliento que com a perda de peso existe também nos primeiros tempos a habituação do nosso corpo e de nós mesmos, a uma outra temperatura corporal, ou seja, pode acontecer o facto de ficarmos mais friorentos, e eu fiquei, mesmo muito friorenta, o que pode também alarmar algumas pessoas, mais uma vez já sabia de antemão desta situação, mas nunca se está preparado para este choque térmico, e ao inicio é complicado, mas vai-se driblando, com agasalhos mais quentes, com camadas de vestuário, e ter cuidado para não correr o risco de hipotermia, por isso, devemos estar sempre bem agasalhamos, e sim, mesmo no verão, com o passar dos meses e anos, começa-se a suportar mais, mas nada como antes.

Logo, a seguir a cirurgia e depois de autorização médica, convém começar  a fazer pequenas caminhadas, e a introdução de hidroginástica, por breves períodos de tempo e exercícios não muito pesados no inicio, e começar a prolonga-los com o passar dos tempos e acompanhada com médicos e com responsáveis dos ginásios e outros locais onde se realizem os desportos que escolherem.

Cabe também a nós, sempre informar estes estabelecimentos da cirurgia que realizámos e quais são as nossas metas a nível físico.

Eu não o fiz, por mais uma vez, não ter possibilidades económicas, e por não gostar de estar fechada em ginásios, fiquei com trauma desde pequena quando tive que deixar a competição, mas actualmente, os jardins ao ar livre dispõem de aparelhos adequados para alguns exercícios, tendo alguns cuidados prévios, como o aquecimento e posteriormente, o relaxamento dos músculos, e com algum acompanhamento de um Personal Trainer, se for possível, obtemos os mesmos resultados, e em casa, também se pode fazer alguns esquemas de exercícios físicos, tais como: se se viver num prédio, pode-se subir e descer as escadas, pode-se fazer flexões com garrafas ou garrafões de água, entre outros exercícios, com cautela e aconselhamento sempre. Tudo isto, obviamente atenua posteriormente a massa muscular e pode influenciar as peles, de que falarei de seguida.

Gostaria aqui também de referir, que com a perda de peso, também temos que começar a lidar com as peles, dependendo do peso que se tem à partida da cirurgia, e o peso que se perde, pode-se ou não ficar com algumas peles em determinadas zonas do corpo, além de estrias, mas também depende da idade do paciente e do seu tipo de pele, e dos cuidados que teve ao longo dos anos, com o seu corpo a nível estético. 

O psicológico aqui tem muita influência, e por isso, deve-se estar sempre acompanhado pelo psicólogo, eu tive alguns problemas no primeiro verão, com as peles nos meus braços, e braços quando antes não tinha.

Ia para a praia de biquíni quando era obesa e também usava mangas à cava, e nunca me importei com as peles e as estrias que já tinha, mas com a perca de peso, isso começou estupidamente a trabalhar na minha mente, mas trabalhei tudo isso com a minha psicóloga, que me deu óptimos conselhos, como por exemplo, descomplicar tudo, usar boleros e casaquinhos, por cima desse vestuário no verão, e isso foi uma óptima solução.  

Actualmente, já me desafio a mim mesma nesta área, mas com contenção, e devem-se preparar para os comentários de que não está muito frio, e que estamos muito agasalhadas, esse é um dos muitos factores sociais com que nos debatemos, para que nos compreendam.

Nesta fase, após aconselhamento médico poderão fazer alguns tratamentos estéticos não evasivos, como drenagem linfática para combater o excesso de pele, e para reafirmar toda a musculatura nessas áreas, por isso, aconselhem-se com os vossos médicos, e claro se forem financeiramente compatíveis com o vosso orçamento. Mais uma vez, eu neste ponto não sou exemplo, porque também não tive esse cuidado, mas hoje em dia, estou muito bem resolvida com as minhas peles nos braços e pernas.

No meu caso, estabilizei o peso muito cedo, e em conversa com o meu medico cirurgião fui encaminhada para cirurgia estética, que está associado a este processo, porque estava com algumas peles no abdómen, e estava a sentir-me disforme, porque mesmo com o peso estabilizado, havia vestuário que com o qual não me sentia à vontade para vestir, e após um a dois anos, com peso estabilizado, com análises com resultados satisfatórios à nossa condição, o nosso desconforto com as peles, e se nós mulheres, ainda não querermos ser mães, especialmente se a área a ser submetida a intervenção cirúrgica, sejam os seios, podemos então, solicitar ao nosso cirurgião que nos encaminhe para a cirurgia estética, e assim aconteceu comigo, e entrei então para a lista de espera de cirurgia estética.

Neste caso, esperei algum tempo e fui a uma consulta no Hospital de S. José, que na altura, era o Hospital na grande área de Lisboa mais indicado para esta situação, e fiz alguns exames, e aguardei sensivelmente, 6 meses em lista de espera, porém não fui chamada para ser operada neste hospital e ao fim de mais dois meses, recebi em casa um Cheque Vale Cirúrgico, no qual, tinha que escolher um dos três hospitais ou clinicas privadas, e contactar o que escolhi, referir que tinha o Cheque Vale Cirúrgico, o seu código, escolher um dos seus especialistas, marcar consulta para Cirurgia Estética, no desenvolvimento da Cirurgia Bariátrica, e assim o fiz.

Escolhi o Hospital de Stº Louis em Lisboa, por ser o mais perto de mim e fui à consulta de cirurgia bariátrica, onde ficou decidido que iria realmente fazer a cirurgia à área do abdomén, visto que era a área que tinha mais pele para ser retirada e a que mais me incomodava, sim porque nós, podemos ir com algumas ideias pre definidas, mas por alguma razão, a área a que queremos ser intervencionados, não ser possível, portanto, o melhor que se faz, é não ir com uma ideia pre definida da área, e em conversa com o médico, definir-se realmente qual a área a ser intervencionada.

Seguidamente, foi-me recomendado pelo meu cirurgião estético a aquisição de uma cinta de compressão de uso obrigatório, pois assim que se sai do bloco operatório, é-nos logo colocada, e teremos que a usar 24 h por dia durante pelo menos dois meses, mas varia de pessoa para pessoa e de médico para médico, são algo dispendiosas, mas recomendo que se compre duas, porque, só as podemos retirar quando fazemos a nossa higiene diária, e claro, com o suor e outros aspectos, convém que a cinta também esteja limpa, e assim, temos duas, para ir trocando sempre, até porque, se trouxermos o dreno para casa, pode haver um descuido, e sujá-la com algumas impurezas, e assim, podemos substituir pela outra limpa.

Obviamente, que já sabia desta situação pelos comentários dos membros do Grupo XXL, ainda tentei que algum membro me empresta se alguma cinta que não já usassem, mas optei por adquirir as minhas, até porque elas, têm que ser à nossa medida, e deve-se comprar, ainda não nos servindo, pois há medida que se avança no pós operatório, a barriga desincha, e a cinta vai modelar-nos essa área.

Em 2011, fiz a minha cirurgia estética, a abdominoplastia, que não correu muito bem. O pós-operatório, não foi o mais favorável, primeiro pela situação da cinta, que nos comprime e restringe muito os movimentos de todo o corpo, depois porque vim para casa com dois drenos, um de cada lado, e nunca me tinha acontecido isso, e também isso, restringia ainda mais a minha mobilidade, e por outro lado, a minha barriga inchou e ganhou líquido, e tive que ser levada ao hospital onde fui operada para que o mesmo fosse drenado pelo médico, ficando eu dependente mais uma vez, de terceiros, durante pelo menos dois meses em casa.

Por este motivo, não quis fazer mais nenhuma cirurgia estética, além de que, entretanto a minha vida e os meus objectivos pessoais e familiares mudaram, e não passam tanto por ai, pelo meu físico, que nunca foi uma área a que eu desse muita atenção, e após esta situação, resolvi interiormente, não as fazer, mas apoio quem queira fazer mais cirurgias estéticas e que sinta necessidade, o facto de não ter corrido bem comigo, apesar de eu ter respeitado todas as recomendações médicas, não quer dizer que aconteça a mais pessoas.

Na verdade, este processo é algo lento por alguma razão, primeiro para nos consciencializarmos de todo este processo do que é que ele abarca, se estamos bem connosco e posteriormente com o novo eu, se temos uma boa estrutura familiar e psicológica, para abraçar todas estas mudanças, e há que dar tempo ao tempo e ao nosso corpo, também para se habituar a todas estas mudanças, mas veja-se que, também existem casos de pessoas que se viciam nas cirurgias plásticas apos o emagrecimento, e o que não é nada bom, como em tudo na vida, há que ter bom senso.

Por tudo isto, começou-se a desenhar na minha mente, que teria que começar a realizar uma actividade física que gostasse e que estivesse ao meu alcance financeiro e através da rede social Facebook, fui vendo e agregando-me a alguns grupos de caminhadas em Sintra, Lisboa, Seixal, e assim comecei de uma forma mais regular, a efectuar uma actividade, que no meu subconsciente já fazia, visto que, após o emagrecimento, comecei a desabrochar socialmente, comecei a meter-me mais com as pessoas que conhecia, comecei como referi mais atrás a sair com o Grupo XXL em jantares de convívio, onde conhecia mais pessoas, que queriam perder peso, outras que perderam, etc., e fui tendo mais confiança em mim, além de que com a ajuda da Gina Geadas, comecei a elaborar uma lista de desejos que queria realizar, tais como: andar num kart, andar de balão, saltar de paraquedas, visitar monumentos, entre outros, e com essa lista, consegui começar a delinear o meu percurso, de cultura e também de actividade física, visto que nestes anos após o Bypass comecei a visitar ou a revisitar alguns monumento em Sintra, Lisboa e outras localidades do país, sozinha, com grupos de caminhantes que ia conhecendo, com amigos, com o Grupo XXLight, com a CASMP, com o Todos Por Todos, e fui trocando sempre, os transportes públicos sempre que possível, pela caminhadas nas deslocações para esses locais, como subir a Serra de Sintra várias vezes, para visitar os vários monumentos que se situam ao seu redor, em pequenas deslocações entre transportes públicos, em que aproveitava e aproveito, para ir a pé e fotografar, onde vi muitos nascer do sol, onde também fui apreciando a natureza, o Rio Tejo, que me acalmou e acalma, em tantos momentos complicados da minha vida, nunca descurando a minha alimentação, indo sempre munida com uma mochila com os meus snacks para o dia todo.

Assim, consigo aliar também um passatempo que gosto, que é a fotografia, e isso tem ajudado muito, no meu processo, temos é que ver o que gostamos, e fazê-lo.

Na verdade, cheguei muitas vezes em Sábados e Domingos, levantar-me às 05:00 h da manhã, para ir caminhar ou sozinha ou com os grupos que já referi acima, devido a ter que apanhar vários transportes até ao ponto de encontro dos diversos acontecimentos, e aí ou ia lá ter, ou se os mesmos fossem mais longe, iria de boleia.

A par, destas actividades continuei o meu percurso formativo, fazendo pequenos cursos em horário pós laboral, nas mais diversas áreas, primeiro porque gostei sempre de saber mais, de aprender, de descobrir, depois também para ocupar os meus tempos, apesar de não serem já muitos com tantas actividades, mas como, a minha estrutura familiar não me era muito familiar, especialmente após a cirurgia, assim, fazia o que mais me apraz, cultivava-me e também contribua para mais uma possível promoção  a nível profissional.

Ao mesmo tempo, continuava a colaborar nas actividades do Grupo XXLight, tanto presencialmente como na Internet, onde tentava ajudar outras pessoas neste percurso, assim sendo, envolvi-me na organização de exposições de artesanato do Grupo XXLight, assim como em várias actividades do grupo, mais incisivamente no Baú da Madrinha, divulgando-o nas redes sociais, pelas pessoas, em estabelecimentos comerciais, e do mesmo modo, conheci outro grupo sobre esta temática, o Power Of Change, onde também conheci muitas pessoas obesas e ex obesas, onde trocávamos ideias, actividades, e através dos mesmos, tomei conhecimento também da Associação Portuguesa dos Obesos e Ex-Obesos de Portugal, ADEXO, no qual me tornei também sócia desde o ínicio do meu processo cirúrgico, onde fiquei a saber, de que o dia 23 de Maio, se celebra o Dia Nacional Contra a Obesidade, que até aqui me era completamente desconhecido e assim, também colaborei com os mesmos, através do XXL, em várias actividades para se celebrar este dia, no Estádio Universitário de Lisboa. Contudo, com o tempo, as pessoas foram tendo o seu processo resolvido, e não ajudavam e participavam nas actividades da celebração deste dia, e a ADEXO, por várias situações, deslocou-se para a Santo André, onde já realizou as festividades do Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade em 2015.

Entretanto, por adversidades da vida o Grupo XXL foi dissolvido e os seus membros, contactam-se esporadicamente noutros contextos e através das redes sociais, e eu fui continuando a minha caminhada com algumas situações pessoais e familiares pelo meio, mas sempre, a tentar ajudar o próximo neste teor através das redes sociais, visto que assumi para mim mesma, que esta é a minha missão, apesar de ser muitas vezes, mal interpretada.

Concluindo, queria relatar que nestes quase 8 anos, continuo a manter o mesmo peso, só tive 63 kgs após a cirurgia estética, mas que fiz um esforço alimentar e físico como anteriormente aludi, e que nestes anos, tenho sempre oscilado entre os 57 Kgs e os 60 Kgs, de 6 em 6 meses, na mudança de estação, ou emagreço no Verão ou engordo no Inverno 3 Kgs, mas faço sempre um esforço, para manter. O menos peso que tive foi 55 Kgs, há quase três anos, quando me juntei, por diversos motivos.

Actualmente, tenho 60 Kgs e sinto-me bem a nível físico com este peso, apesar de às vezes, querer baixar um ou outro quilo, mas não faço por isso, às vezes, surpreendo-me a mim, mesma quando me dizem, estás mais magra e eu digo que não, mas depois reflectindo, vendo algum vestuário e depois passado um tempo, me vou pesar, verifico sim que estou mais magra, nem que seja um quilo, porque também é mais visível em mim, na cara e no peito, e tenho logo uma prova disso, que são os óculos, já que os uso, e quando emagreço começam a cair-me da cara, sempre que me dobro ou faço outra actividade.

Nestes últimos anos, a minha vida tem dado muitas voltas, umas mais felizes do que outras, no entanto, prezo a amizade, o carinho, a interajuda de pessoas que conheci neste mundo XXLight: Gina claro, saudades muitas, das nossas brincadeiras, conversas, mas sempre estiveste por cá… e entre outras.

Nesta caminhada, tento sempre ter presente tudo o que o XXLight me deu e tento repassa-lo, e o nosso lema, sempre presente: NUNCA DESISTIR.

Obrigado XXLight

Obrigada Gina Geadas

          Ana Dias

Lisboa, 28 de Julho de 2016