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Gorda sim, mas com Humor!

Sou uma Ex-Obesa Morbida e criei este blog apenas para que a minha experiencia possa ajudar e esclarecer quem tambem sofre desta doença

[26] Margarida

Nome: Margarida

Idade: --Anos

Peso: 92Kg - (peso maximo)

Situação:Banda Gástrica

Data do Testemunho: 10.05.2007

 

 

Cara Gina,
Encontrei, por acaso o seu blog, que me parece muito interessante e, como nos dá a oportunidade de transmitirmos o nosso testemunho, aqui vai o meu. Peço desculpa por não ser um testemunho à partida muito animador, mas a minha experiência nesta vida de bandas gástricas (porque ja é a segunda que tenho), fez-me, acima de tudo, aceitar de forma pacífica a minha obesidade.

Eu tenho uma banda gastrica há 5 anos. De 96kg cheguei aos 62 em meio ano. Sol de pouca dura. Após esse tempo, comecei a vomitar sistematicamente e a recuperar o peso. O estomago aumentou de novo a sua capacidade e nada me saciava. Um mês a liquidos não resolveu o assunto. Um ano após a cirurgia, e já com uns quilos a mais, o porte partiu com o abraço de uma criança de 6 anos. Engordei 10kg num mes. Resultado, nova cirurgia para colocar o porte... E o peso sempre a aumentar e o apetite sem se controlar. Vomitava sistematicamente porque não conseguia controlar o apetite.

A banda limita a quantidade de comida, mas nada faz quanto ao apetite.
No verão de 2005 emagreci 15kg em menos de um mes. Tudo o que comia vomitava em seguida. Nem água conseguia beber. Entrei em estado de desidratação e tive que ficar uns dias a soro. Parecia uma velha cheia de rugas e nasceu-me pelo por todo o corpo. Finalmente, após 3 internamentos sem ver boas nem melhoras e assustada com uma hemorragia gastrica, decidi-me a apanhar um avião e vir a Portugal ver o que o cirurgião me dizia. Como me encontrava noutro país, fui adiando a vinda a Portugal para ver o que se passava.
Não devia ter esperado um mês.
Fui internada de imediato (nem a casa fui). Quando me fizeram a radiografia de contraste, mantive o copo da papa branca no estomago durante horas e horas e nada passou para baixo de tal maneira que teve que ser aspirada com uma sonda. Depois de um jejum de duas semanas no hospital ( nem água!) fui reoperada para me porem uma nova banda. Para além do porte estar de novo partido ( não percebo bem porquê, pois desde a primeira vez eu tinha tido todo o cuidado, por vezes até excessivo, e nem deixava, sequer, as pessoas aproximarem-se de mim), o facto de passar a vida a vomitar tinha dilatado o estomago de tal modo que a comida ja não passava para a parte distal.
O médico disse que o meu estomago parecia uma renda e tinha invadido o espaço do fígado.
Não desejo a ninguém o que passei no hospital. A minha família sofreu horrores. Levei dois meses a conseguir ter uma vida normal de tão fraca que fiquei. Estava irreconhecível. Feia. Não me conseguia sequer ver ao espelho.
Escusado sera dizer que os 15 quilos que perdi durante a fase em que estive doente se recuperaram num ano sob a forma de 22...
Tentei perceber o que me tinha acontecido. Sentia-me sitematicamente culpada não sei bem de quê e aquele "agora tenha cuidadinho com o que come!" matava-me. Que tinha feito eu de errado? Afinal a prometida solução magica da banda gastrica estava a revelar-se um pesadelo.

Entretanto entrei em contacto com varias pessoas que colocaram bandas gastricas ha vários anos, por todo o mundo. Uma grande parte ( diria a maior parte) das que contactei tiveram problemas semelhantes ou de outro tipo relacionados com a a banda. Alguns bem mais graves.

Senti-me melhor, menos culpada. Afinal problemas com a banda toda a agente tem. Não tinha sido negligencia minha. É um acontecimento comum a quem opta por este tipo de procedimentos. Após a grande perda de peso, uma grande parte dos doentes recuperaram os quilitos perdidos e voltaram aos velhos habitos alimentares. Tal como eu. Nunca deixei de ira a nutricionistas, e ao psiquiatra quando me sentia mais ansiosa e comia o inimaginável. Nada resultou.
Pedem-nos sacrificio... E eu só respondo, que se tivesse essa capacidade de sacrificio e força de vontade, tinha resolvido o problema da minha obesidade com uma dieta e não teria precisado de uma banda gastrica. Todos os doentes operados, são gente que precisou de ajuda desesperada para perder peso e não porque esta na moda por uma banda gastrica. Detesto e não compreendo quando me me dizem " va la, um pouco de sacrificio e força de vontade!" Essa gente não sabe do que fala e não sabem o que nos pedem. Imagino que quem tem uma banda ou esta a pensar por uma, passou e passa a mesma agonia. Se não teem mais nada para nos dizer, é melhor que se calem, mas não comecem a pedir-nos coisas de que provámos não sermos capazes.

O objectivo da banda gastrica é ajudar a perder peso a pacientes com obesiadade móbida que não conseguem, por outro método perder peso e reeducar a sua alimentação. Quando a coloquei, achei que seria a solução magica para 26 anos de obesidade. O sonho durou pouco. Para além dos quilos recuperados, morro de medo de qualquer actividade fisica que me demande mais esforço com medo de partir o terceiro porte. Deixei de fazer coisas que adorava fazer com medo de cair e partir a banda.

Desportos... Na maior parte deles o porte magoa-me as costelas, por isso desiti. Tive que reorganizar o meu trabalho para não ficar exposta a coisas que me pudessem danificar a banda, para já não falar em implicações do foro íntimo e pessoal. E para quê todo este cuidado se continuo a comer tudo e mais alguma coisa e a ganhar peso, se a banda não esta a fazer o que deve, se , ao contrário da solução mágica que esperava acabei com tres cirurgias e num sofrimento desumano e gorducha na mesma?

Quando me perguntam se me arrependi de ter posto a banda, não consigo responder... Pelo menos tive o meu meio ano de glória com um peso aceitável. Não sei se o preço que paguei por esses parcos meses foi o justo.

O que quero que as pessoas compreendam quando falo da minha experiência é que não devem esperar uma solução milagrosa. A banda tem custo pessoais que ninguém adivinha quando a coloca pela primeira vez e sobre os quais ninguém nos adverte. Cabe a cada um decidir se não é uma conta demasiado alta a pagar. Para mim, foi. Para além disso esta provado que a banda gastrica resolve apena imediatamente e temporariamente os problemas de obesidade. Não é, de todo, uma solução a longo prazo. Deviam ter-nos dito isso antes de a colocarmos.

A solução contra a obesidade, todos a conhecem: tranca na boca, comer o que se deve e velocidade nas pernas... Não é uma solução mágica. Fácil de dizer, difícil de fazer, mais difícil ainda para gente como nós que nunca conseguiu seguir uma dieta e luta ha anos e anos para perder peso sem sucesso.

Após tanto sofrimento e desilusão, optei pela solução que me parece menos penosa: se não venço os quilos, junto-me a eles. Quanto a mim, estou a reaprender a viver como gordinha. Afinal não é assim tão mau. Tenho uma cara mais bonita de que quando tinha 62 quilos, visto roupas bonitas de criadores que desenham roupas para meninas e meninos mais redondinhos e esqueci a banda. Quero la saber se parte ou deixa de partir. Ja amputou demasiado a minha vida para continuar a dar-lhe importancia. Um dia destes talvez a tire já que nao esta a fazer nada. E acredita que me sinto melhor. O ponto mais positivo da colocação da banda gastrica é que aceitei ser redondinha. Faz parte de mim; nunca vou ser um pau de virar tripas. Redondinha, mas feliz!!