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Gorda sim, mas com Humor!

Sou uma Ex-Obesa Morbida e criei este blog apenas para que a minha experiencia possa ajudar e esclarecer quem tambem sofre desta doença

[22] Célia

Nome:Célia

Idade: 35 Anos

Altura:1,67

Peso: 101 Kg

Situação:Actualmente faz exames para o Bypass Gástrico

Data do Testemunho: 06.04.2007

 

Sou a Célia, tenho 35 anos e sempre fui "rechonchuda", segundo a minha mãe, quando nasci andei de sala em sala ao colo da enfermeira que teimava em dizer que era uma bébé linda, muito branquinha e redondinha... Os anos passaram e a menina continuava a crescer, sempre redondinha, aos 4 anos fui a um médico que me fez um enorme exame e me deu uns comprimidos, que eu ainda me lembro de tomar, eram em forma de coração, cor de rosa e muito pequeninos.
Aí a menina começou a emagrecer e a ficar uma menina magrinha, só que os pais acharam que a menina já não era a menina deles assim tão magrinha e que os comprimidos só me estavam a fazer mal e então os comprimidos foram deitados fora o nome não se guardou, nunca mais se voltou ao médico,e a menina voltou a ficar redondinha e a apanhar palmadas para comer sempre que não o queria fazer. Os anos continuaram a passar e a menina a ser uma menina redondinha, nada do outro mundo, mas sempre acima do peso que devia ter. Aos 10 anos atingi os 45kg, mas era altinha como se dizia em casa dos meus pais... Não era uma criança facil e tornei-me numa adulta complicada.

Aos 10 anos ainda levava palmadas para comer, mas ao mesmo tempo tinha de ouvir comentários diários sobre o ser gorda, eram os colegas na escola, o irmão e os primos em casa, e a própria mãe que refilava porque tinha de me fazer roupa e a dificuldade de coser para gordos que nada ficava bem...
Entre os 13 os 15/16 anos, emagreci um pouco, continuava acima do peso, mas consegui uma conquista, vestir calças, coisa que a minha mãe nunca havia deixado alegando que eu não tinha corpo para isso.
Mas aos 16 anos, faleceu a Tia que eu adorava, a que me ouvia e tentava fazer-me sentir igual as outras pessoas, com quem eu tinha a mais forte ligação afectiva. Numa semana engordei 9 kg, o sistema nervoso completamente desajustado, um principio de depressão, comprimidos e mais comprimidos e o peso a aumentar e a oscilar. Fui então a 2 ou 3 médicos e o veredicto era sempre sistema nervoso, a tristeza era uma constante.
Então o ser gorda, começou a servir de escudo para muitas situações, aos 18/19 anos, eu era a amiga dos rapazes da turma, mas como era gordinha era apenas amiga. Quando alguém dizia que eu era bonita ficava sempre à espera de ouvir o gorda a seguir, e aí sabia que estava "salva". Em casa também ninguem me deixava esquecer que era gorda e isso todos os dias era relembrado sempre de uma forma ou de outra. A mãe que sempre fazia chantagem para eu comer mais e sempre que podia lá vinha o "és tão gorda que não fazes vista nenhuma"...

E o ponteiro da balança ia subindo surrateiramente, 1 ou mesmo 2 kg por ano. Aos 23 anos o peso variava entre os 79/82 kg. Era uma gordinha torneada. Tinha entrado para o curso superior, depois de ter mudado de àrea 2 vezes, estava por fim no que gostava, mesmo a contragosto da família. Volto a perder mais uma pessoa importante, o meu pai, de quem eu devo ter herdado o gene, pois era o unico gordo na família.
Acontece pela primeira vez, algo que agora consigo reconhecer, pela primeira vez noto que como por compulsividade. Tenho ansia de comer, comer qualquer coisa, e os sentimentos são um misto, entre a satisfação daquela necessidade e o peso e a culpa de ter comido, como se o magoar-me a mim mesma fosse o caminho. Ao fim dos 4 anos de curso tenho 86kg mais 1 kg por ano.

Entre os 29 e os 30 anos, fui morar para lonje por motivos profissionais, e em 2 anos sem dietas de maior emagreço naturalmente até aos 72kg, estava bem, sentia-me bem. Volto para casa, para junto da família e volta a engordar até aos 80. Depois com o terminar de um relacionamento, o ponteiro da balança dispara até aos 96kg, Foi então que iniciei uma dieta rigorosa e perco 18 kg, voltando-me a sentir melhor, os meus hábitos alimentares alteram-se muito, deixo de comer habitualmente muitas coisas de que gostava, as batatas deixam de entrar em casa, pão só muito de vez em quando, mas a verdade é que cada vez que tenho um problema maior o peso volta a subir e desde fins de Outubro de 2006 a Fevereiro de 2007, em quatro meses engordei 12kg, e voltei a ter crises de compulsividade alientar, contra as quais tento lutar com todas as forças, pois o meu peso é de 101kg. Tenho problemas de saúde, dores na coluna e nos joelhos, entre muitos outros problemas associados ao excesso de peso.

Então chegou a hora, e como nada acontece por acaso, mas foi sobre a forma de um acaso que fui encaminhada para o consultório do médico a ideia cresceu em mim... E pela primeira vez na minha vida, sinto que primeiro estou eu e não os outros, e que eu sou a pessoa mais importante para mim, por isso estou a fazer os exames e vou seguir em frente, para um bypass gástrico.

Quero mudar a capa ao livro da minha vida, e reescrever uma nova história daqui para a frente.
Sempre me considerei uma pessoa forte e por isso sei que vou conseguir.
Obrigada a todos os que me tem ouvido e que me ajudam nesta batalha.